{"id":23173,"date":"2008-09-15T00:00:00","date_gmt":"2008-09-15T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.odontosites.com.br\/odonto\/fendas-labio-palatinas.html"},"modified":"2012-06-05T21:21:06","modified_gmt":"2012-06-06T00:21:06","slug":"fendas-labio-palatinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odontosites.com.br\/odonto\/fendas-labio-palatinas\/","title":{"rendered":"Fendas Labio Palatinas"},"content":{"rendered":"<p>Por Natalia Raposo da Silva \/ Vanessa Cristina da Silva Bernardes<br \/>\nDisciplina Cirurgia II Universidade Veiga de Almeida<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>As <strong>fissuras de l\u00e1bio e palato<\/strong> s\u00e3o deformidades cong\u00eanitas caracterizadas pela interrup\u00e7\u00e3o na continuidade dos tecidos do l\u00e1bio superior, rebordo alveolar superior e palato, de forma parcial para cada um destes elementos ou, de maneira mais abrangente, quando mais de um ou mesmo todos estes segmentos do ter\u00e7o m\u00e9dio da face se apresentam comprometidos. Podem ainda ser unilaterais, bilaterais, ou medianas. Existem fissuras de l\u00e1bio inferior envolvendo at\u00e9 mesmo a mand\u00edbula, por\u00e9m, s\u00e3o bem mais raras que as fissuras de l\u00e1bio-palato.<\/p>\n<p>Nota-se a exist\u00eancia de aspectos multifatoriais concomitantes, tais como, hereditariedade, car\u00eancia alimentar, influ\u00eancias psicol\u00f3gicas, doen\u00e7as infecciosas, idade avan\u00e7ada dos genitores, drogas, radia\u00e7\u00e3o ionizante, diabetes materna e fumo. Poucos defeitos t\u00eam, para fam\u00edlia o impacto emocional de ver a crian\u00e7a facialmente desfigurada, soma-se a isso a defici\u00eancia funcional avan\u00e7ada da fala, mastiga\u00e7\u00e3o e degluti\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma preval\u00eancia aumentada de malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas associadas, bem como defici\u00eancia de aprendizagem secund\u00e1ria \u00e0 defici\u00eancia da audi\u00e7\u00e3o. (21)<\/p>\n<p>Tentativas de se corrigir o defeito, pela localiza\u00e7\u00e3o compromete seriamente a est\u00e9tica facial. A primeira descri\u00e7\u00e3o documentada de sucesso na corre\u00e7\u00e3o de fissura de l\u00e1bio foi feita por um cirurgi\u00e3o flamengo, chamado Yeperman (1295-1351). No entanto as primeiras refer\u00eancias cir\u00fargicas para corre\u00e7\u00e3o de fenda palatina, ocorreram no s\u00e9culo XIX com destaque para os trabalhos de Graefe (1816) e Roux (1819), para reparo de palato mole e Diffenbach (1826) para reparo de palato duro. (13)<\/p>\n<p>A partir do pioneirismo desses cirurgi\u00f5es, surgiram novas oportunidades para outros profissionais da \u00e1rea de sa\u00fade pesquisarem e desenvolverem novas t\u00e9cnicas no tratamento de fissuras l\u00e1bio- palatinas que objetivassem cada vez mais uma melhor recupera\u00e7\u00e3o funcional e est\u00e9tica para o paciente. Vale ressaltar que nem todas as propostas de cirurgia apresentadas s\u00e3o v\u00e1lidas.<\/p>\n<p>Revis\u00e3o<\/p>\n<p><strong>Embriologia da face<\/strong><\/p>\n<p>O desenvolvimento inicial da face \u00e9 dominado pela prolifera\u00e7\u00e3o e migra\u00e7\u00e3o do ectom\u00easenquima envolvido na forma\u00e7\u00e3o das cavidades nasais primitivaas. Em torno do 28\u00ba dia de vida intrauterina, espessamentos localizados desenvolvem-se no ectoderma da proemin\u00eancia frontal em posi\u00e7\u00e3o rostral \u00e0 abertura do estom\u00f3dio. Tais espessamentos s\u00e3o plac\u00f3ides olfat\u00f3rios. Uma r\u00e1pida prolifera\u00e7\u00e3o do mes\u00eanquima subjacente ocorre em torno das sali\u00eancias dos plac\u00f3ides na proemin\u00eancia frontal anterior, produzindo, tamb\u00e9m, uma sali\u00eancia em forma de ferradura, que transforma o plac\u00f3ide olfat\u00f3rio em uma fosseta nasal. O bra\u00e7o lateral de cada ferradura \u00e9 chamado processo nasal lateral, e o bra\u00e7o medial processo nasal medial. Entre os dois processos nasais, encontra-se uma nova \u00e1rea formada por uma depress\u00e3o, denominada processo frontonasal. Os processos nasais mediais dos dois lados, junto com o processo frontonasal, formam a por\u00e7\u00e3o m\u00e9dia do nariz, por\u00e7\u00e3o m\u00e9dia do l\u00e1bio superior, por\u00e7\u00e3o anterior da maxila e palato prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os processos maxilares crescem medialmente e se aproximam dos processos nasais medial e lateral, porem permanecem separados deles por n\u00edtidos sulco. O crescimento medial do processo maxilar empurra o processo nasal medial em dire\u00e7\u00e3o a linha m\u00e9dia, onde se funde com a sua contraparte anat\u00f4mica do lado oposto, eliminando o processo frontonasal. Dessa forma, o l\u00e1bio superior \u00e9 formado a partir dos processos maxilares e processos nasais mediais, ocorrendo fus\u00e3o entre a extens\u00e3o anterior do processo maxilar e a face lateral do processo nasal medial. O l\u00e1bio inferior \u00e9 formado pela fus\u00e3o dos processos mandibulares. A fus\u00e3o dos dois processos nasais mediais resulta na forma\u00e7\u00e3o de parte da maxila, que contem os dentes incisivos e o palato prim\u00e1rio, assim como parte dos l\u00e1bio.<\/p>\n<p>Um tipo incomum de fus\u00e3o ocorre entre o processo maxilar e o processo nasal lateral. Como a maioria dos outros processos associados ao desenvolvimento facial, os processos maxilares e nasais laterais s\u00e3o, inicialmente, separados por um sulco profundo. O epit\u00e9lio do assoalho do sulco entre eles formam um n\u00facleo s\u00f3lido que se separa da superf\u00edcie e, finalmente, da origem a um canal, para formar o ducto nasolacrimal. Ap\u00f3s o ducto tornar-se separado os dois processos fundem-se em decorr\u00eancia da prolifera\u00e7\u00e3o do mes\u00eanquima.<\/p>\n<p>As fendas possuem diferentes causas. As fendas do l\u00e1bio e da maxila anterior resultam de um desenvolvimento imperfeito do palato embrion\u00e1rio prim\u00e1rio. Freq\u00fcentemente, quando essas fendas ocorrem, a deforma\u00e7\u00e3o do desenvolvimento facial impede o contato das cristas palatinas, quando elas giram para a posi\u00e7\u00e3o horizontal, de tal forma que as fendas do palato prim\u00e1rio s\u00e3o freq\u00fcentemente acompanhadas pelas do palato secund\u00e1rio (duro e mole).Entretanto, as fendas palatinas podem resultar de: falhas das cristas palatinas de se contatarem por causa de uma falha de crescimento ou de um dist\u00farbio no mecanismo de eleva\u00e7\u00e3o das cristas; falha das cristas em se fundirem ap\u00f3s o contato ter sido estabelecido devido ao fato de o epit\u00e9lio de revestimento n\u00e3o se romper ou n\u00e3o ser reabsorvido; ruptura ap\u00f3s ter ocorrido a fus\u00e3o das cristas; fus\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o defeituosa do mes\u00eanquima das cristas palatinas. (14)<\/p>\n<p><strong>Etiologia e patogenia<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um fator espec\u00edfico que possa ser respons\u00e1vel pelas fendas labiais e palatinas. Porem, h\u00e1 um conjunto de aspectos que s\u00e3o co-responsaveis pela altera\u00e7\u00e3o embriog\u00eanica nos dois primeiros meses de gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>1. genes mutantes: pode ser a explica\u00e7\u00e3o para a ocorr\u00eancia dessas deformidades associadas a outras s\u00edndromes raras, principalmente envolvendo altera\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas dos membros.<\/p>\n<p>2. aberra\u00e7\u00f5es cromoss\u00f4micas: quando ocorrem associadas a s\u00edndromes como a D-trissomia.<\/p>\n<p>3. agentes teratog\u00eanicos: mol\u00e9stias, medicamentos, estresse, quando agindo em um embri\u00e3o predisposto geneticamente, seriam respons\u00e1veis por uma pequena propor\u00e7\u00e3o dos casos.<\/p>\n<p>4. heran\u00e7a multifatorial: a maior parte dos casos se enquadra nesta categoria. Haveria uma tend\u00eancia familiar n\u00e3o obedecendo um padr\u00e3o mendeliano e n\u00e3o estando presentes, ou pelo menos demonstr\u00e1veis, as aberra\u00e7\u00f5es cromoss\u00f4micas. (13)<\/p>\n<p>Condi\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas como diabete materna, a idade avan\u00e7ada dos genitores e o fumo, tamb\u00e9m tem uma rela\u00e7\u00e3o predisponente as fissuras l\u00e1bio palatinas. (3)<\/p>\n<p>Apesar de estarem freq\u00fcentemente associadas s\u00e3o anomalias que envolvem processos de desenvolvimento diferentes, que ocorrem em tempos diversos, no per\u00edodo entre a 4\u00ba e a 8\u00ba semana de gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Incid\u00eancia<\/p>\n<p>Na literatura nacional e internacional, evidenciou-se que os autores consideram as fissuras de l\u00e1bio e\/ou palato, uma malforma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita de elevada incid\u00eancia. Sendo a hereditariedade respons\u00e1vel por 25% a 30% dos casos de fissuras de l\u00e1bio e\/ou palato e cerca de 70% a 80% dos casos s\u00e3o considerados de etiologia multifatorial. Essas s\u00e3o consideradas como a segunda malforma\u00e7\u00e3o mais comum na popula\u00e7\u00e3o. No Brasil, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber o n\u00famero exato de fissurados, estima-se existirem cerca de 180.000 portadores, sendo a ocorr\u00eancia da ordem de um para cada 650 nascimentos, e a mortalidade no primeiro ano de vida em torno de 35% (20), (11).<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de fissura os estudos de Fogh-Andersen (1942) apresentam:<\/p>\n<ul>\n<li>25% &#8211; fissuras de l\u00e1bio isoladamente, 80% unilateral , 20% bilatera<\/li>\n<li>50% &#8211; fissuras l\u00e1biopalatinas<\/li>\n<li>25% &#8211; fissuras de palato isolado<\/li>\n<\/ul>\n<p>Esses mesmos estudos, confirmados por outros autores, mostram prefer\u00eancia pelo lado esquerdo nas fissuras labiais, predomin\u00e2ncia pelo sexo masculino nas fissuras l\u00e1biopalatinas e pelo feminino nas fissuras isoladas de palato.(13). A incid\u00eancia global de fendas labiais \u00e9 de aproximadamente 1 em 700 nascidos vivos. Esse \u00edndice parece estar lentamente crescente, possivelmente por causa dos cuidados neonatais melhorados das crian\u00e7as sindr\u00f4micas mais gravemente afetadas. 85% dos l\u00e1bios leporinos ocorrem isoladamente e 15% possuem associa\u00e7\u00e3o sindr\u00f4mica, significando que eles est\u00e3o associados com outras deformidades cong\u00eanitas ou com conhecidas aberra\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas. Existem mais de 200 s\u00edndromes conhecidas associadas com essas fendas. Uma das mais importantes \u00e9 a s\u00edndrome de Von der Woude, que se apresenta como um l\u00e1bio leporino com buracos labiais. Sua import\u00e2ncia est\u00e1 na modalidade de transmiss\u00e3o. Essa s\u00edndrome apresenta transmiss\u00e3o autoss\u00f4mica dominante, e a descend\u00eancia do individuo afetado tem probabilidade de 50% de ser acometido. (3)<\/p>\n<p>A incid\u00eancia de fenda palatina isolada \u00e9 de aproximadamente 1 em 2000 nascidos vivos.<\/p>\n<p>Neel (1958) mostra maior incid\u00eancia de fissuras l\u00e1biopalatinas entra crian\u00e7as japonesas (2,1:1000), situa\u00e7\u00e3o confirmada por Fujino (1963), entre outros orientais. Estudos com a popula\u00e7\u00e3o negra radicada nos Estados Unidos mostra uma menor incid\u00eancia, cuja a m\u00e9dia estaria em torno de 0,4 para 1000 nascimentos. (13)<\/p>\n<p><strong>Classifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>V\u00e1rias s\u00e3o as classifica\u00e7\u00f5es utilizadas para as fissuras labiopalatinas, por\u00e9m poucas t\u00eam aplica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Classifica\u00e7\u00e3o de Davis e Ritchie (1922), baseada na posi\u00e7\u00e3o da fissura em rela\u00e7\u00e3o ao processo alveolar. S\u00e3o tr\u00eas os grupos:<\/p>\n<p>Grupo I &#8211; Fissura pr\u00e9-alveolar, quando envolve somente o l\u00e1bio. Pode ser unilateral, bilateral ou mediana.<\/p>\n<p>Grupo II &#8211; Fissura p\u00f3s-alveolar, comprometendo palato mole, palato mole mais palato duro ou fissura submucosa<\/p>\n<p>Grupo III &#8211; Fissura alveolar, que pode ser unilateral, bilateral ou mediana.<\/p>\n<p>Classifica\u00e7\u00e3o de Veau (1931). S\u00e3o quatro os tipos:<\/p>\n<p>Tipo I &#8211; Fissuras de palato mole.<\/p>\n<p>Tipo II &#8211; Fissuras de palato duro e palato mole at\u00e9 o limite no forame incisivo<\/p>\n<p>Tipo III &#8211; Fissuras de palato duro e palato mole at\u00e9 o limite no forame incisivo na linha m\u00e9dia, estendendo at\u00e9 ao alv\u00e9olo na posi\u00e7\u00e3o do futuro dente incisivo lateral de um dos lados.<\/p>\n<p>Tipo IV &#8211; Fissura bilateral completa. \u00c0 semelhan\u00e7a do tipo III, envolvendo os dois lados e mantendo uma por\u00e7\u00e3o mediana pr\u00e9-maxila, suspensa ao septo nasal.<\/p>\n<p>Kernahan e Stark (1958) e Harkins (1962) propuseram classifica\u00e7\u00f5es que na sua modifica\u00e7\u00e3o foram adotadas pela Associa\u00e7\u00e3o Americana de Fissura Palatina. Spina (1979) conseguiu simplific\u00e1-las da seguinte maneira:<\/p>\n<p>Grupo I: Fissuras pr\u00e9-forame incisivo: Fissuras de l\u00e1bio com ou sem envolvimento alveolar. Podendo ser bilateral ou unilateral, completa ou incompleta.<\/p>\n<p>Grupo II: Fissuras transforame incisivo: s\u00e3o os de maior gravidade, atingindo l\u00e1bio, arcada alveolar e todo palato. Podendo ser unilateral ou bilateral.<\/p>\n<p>Grupo III: Fissuras p\u00f3s forame incisivo: s\u00e3o fissuras palatinas, em geral medianas, que podem situar-se apenas na \u00favula, palato e envolver todo palato duro. Podendo ser completa o incompleta.<\/p>\n<p>Grupo IV: Fissuras parciais raras.<\/p>\n<p>Caracter\u00edsticas do portador de fenda l\u00e1bio palatina<\/p>\n<p>As fendas l\u00e1bio palatinas podem ser uma anomalia cong\u00eanita isolada, fazer parte de uma s\u00edndrome ou associa\u00e7\u00e3o e portanto h\u00e1 a necessidade de uma cuidadosa investiga\u00e7\u00e3o em busca de outras anormalidade. (17)<\/p>\n<p>Quanto a exist\u00eancia de anomalias associadas, 2-11% dos casos de fenda l\u00e1bio palatina tem outras anomalias cong\u00eanitas, sendo 7-13%, quando h\u00e1 apenas fenda labial e 13-50%, quando h\u00e1 fenda palatina isolada.(6)<\/p>\n<p>A anomalia cong\u00eanita mais comum nos casos de fenda l\u00e1bio palatina \u00e9 a card\u00edaca. De todas as crian\u00e7as portadoras, 30% apresentam cardiopatia cong\u00eanita. Se a fenda labial \u00e9 unilateral, a cardiopatia ocorre em 5 % dos casos. Se for bilateral, em 12 %. As anomalias esquel\u00e9ticas acontecem em 11 % dos casos de fenda l\u00e1bio palatina e a assimetria de orelha \u00e9 observada em 21% dos casos.(8), (11)<\/p>\n<p>Pode ocorrer retardo de crescimento pr\u00e9 e p\u00f3s-natal, insufici\u00eancia velofaringeana, atresia de es\u00f4fago, anomalias de fus\u00e3o em v\u00e9rtebras (15-20%), sendo 54% em cervical, anomalias olfat\u00f3rias (50% em casos de fenda palatina) e do trato urin\u00e1rio. Os indiv\u00edduos com fenda l\u00e1bio palatina t\u00eam uma incid\u00eancia 40 vezes maior do que a da popula\u00e7\u00e3o geral para apresentar defici\u00eancia do horm\u00f4nio de crescimento (GH).(6)<\/p>\n<p>Diagn\u00f3stico pr\u00e9-natal , tratamento e progn\u00f3stico<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico precoce pode ser realizado no pr\u00e9-natal pela ultra-sonografia a partir da 14\u00ba semana de gesta\u00e7\u00e3o (6). No trabalho de Bunduki et al. (2000) foram avaliados 40 fetos com diagn\u00f3stico pr\u00e9-natal de fenda l\u00e1bio palatino, sendo 45% de fenda labial, 47.5 % de fenda l\u00e1bio palatina e 7,5% de fenda palatina. Os autores consideraram que as fendas l\u00e1bio palatinas s\u00e3o excelentes marcadores para malforma\u00e7\u00f5es associadas a aneuploidias. O car\u00e1ter isolado de fenda palatina esteve associado a um excelente progn\u00f3stico.(2)<\/p>\n<p>As crian\u00e7as que apresentam algum tipo de fissura l\u00e1bio palatina, devem submeter-se a um programa de recupera\u00e7\u00e3o multidisciplinar, pois a complexidade maior ou menor da altera\u00e7\u00e3o requer um concurso de diferentes profissionais tais como:<\/p>\n<ul>\n<li>Cirurgi\u00f5es dentistas: especializados em cirurgia, ortodontia, pr\u00f3tese e odontopediatria.<\/li>\n<li>M\u00e9dicos: especializados em cirurgia pl\u00e1stica, pediatria, otorrinolaringologia e psiquiatria.<\/li>\n<li>Outros: psic\u00f3logo, assistente social, fonoaudi\u00f3logo, nutricionista e enfermeiro.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O atendimento do fissurado pode seguir a seguinte orienta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Do nascimento ao fim do primeiro m\u00eas:<\/p>\n<p>Orientar os pais, inform\u00e1-los, devidamente, quanto ao problema atual da crian\u00e7a, as perspectivas futuras e ajud\u00e1-los a assumir uma atitude sadia com rela\u00e7\u00e3o ao problema.<\/p>\n<ul>\n<li>Supervisionar a sa\u00fade geral da crian\u00e7a.<\/li>\n<li>Planejar a cirurgia a ser executada.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Do fim do primeiro m\u00eas ao fim do primeiro ano:<\/p>\n<ul>\n<li>Cirurgia para fechar a fenda do l\u00e1bio.<\/li>\n<li>Supervisionar a sa\u00fade geral da crian\u00e7a.<\/li>\n<li>Orientar os pais quanto aos cuidados a ter com a crian\u00e7a.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Do fim do primeiro ano at\u00e9 o s\u00e9timo ano<\/p>\n<ul>\n<li>Supervisionar a sa\u00fade geral da crian\u00e7a.<\/li>\n<li>Orientar a crian\u00e7a, buscando seu desenvolvimento psicossom\u00e1tico.<\/li>\n<li>Cirurgia para fechar a fenda platina.<\/li>\n<li>Pr\u00f3tese reparadora.<\/li>\n<li>Treinamento da fona\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Cuidados ortod\u00f4nticos.<\/li>\n<li>Tratamento dos dentes.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Dos seis anos at\u00e9 a idade adulta:<\/p>\n<ul>\n<li>\u00a0Supervis\u00e3o geral da sa\u00fade. Orienta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e aux\u00edlio aos pais sob o aspecto psicol\u00f3gico.<\/li>\n<li>\u00a0\u00a0\u00a0 Cirurgia, pr\u00f3tese e ortodontia, sempre que o caso demandar.<\/li>\n<li>\u00a0\u00a0\u00a0 Supervis\u00e3o e tratamento dent\u00e1rio peri\u00f3dico.<\/li>\n<li>\u00a0\u00a0\u00a0 Treinamento de fona\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>\u00a0\u00a0\u00a0 Orienta\u00e7\u00e3o vocacional, adestramento e desempenho de alguma fun\u00e7\u00e3o.(12)<\/li>\n<\/ul>\n<p>Os procedimentos operat\u00f3rios para palatoplastia s\u00e3o muito variados, visto que cada fissura \u00e9 \u00fanica. Elas variam em largura extens\u00e3o, quantidade de tecidos moles e duros dispon\u00edveis e extens\u00e3o do palato (16). O objetivo geral da cirurgia \u00e9 fechar o palato duro com os tecidos moles adjacentes \u00e0 fissura. Assim, descrevendo ao longo de um procedimento operat\u00f3rio as variadas caracter\u00edsticas da fissura a qual o cirurgi\u00e3o pode-se defrontar e relacionada a estas particularidades, as varias t\u00e9cnicas que ele pode estar utilizando.<\/p>\n<p>O primeiro cuidado deve se garantir, em maior grau poss\u00edvel a anti-sepsia do campo operat\u00f3rio, sendo c\u00e1ries previamente obturadas e ra\u00edzes dentarias inaproveit\u00e1veis extra\u00eddas (8). O palato duro \u00e9 fechado apenas com tecido mole. Os tecidos moles s\u00e3o incisados ao longo da margem da fissura e dissecados dos processos palatinos ate qu\u00eas seja poss\u00edvel sua aproxima\u00e7\u00e3o sobre a fissura. Os tecidos moles que se estendem ao redor da margem da fissura variam em qualidade e quantidade. Alguns s\u00e3o atr\u00f3ficos e n\u00e3o dispon\u00edveis para uso, como ocorrem em fissuras largas. (1)<\/p>\n<p>Os tecidos moles, ao redor da fissura que forem saud\u00e1veis, prestam-se de pronto, para disseca\u00e7\u00e3o da sutura. Esse procedimento precisa freq\u00fcentemente de incis\u00f5es relaxantes laterais pr\u00f3ximas a denti\u00e7\u00e3o. Os tecidos moles s\u00e3o ent\u00e3o firmemente suturados sobre a fissura, e aguardado cicatrizar. As \u00e1reas de osso exposta cicatrizam por segunda inten\u00e7\u00e3o. Quando \u00e9 poss\u00edvel, Graziane (1995) recomenda o fechamento da fissura em duas camadas, sendo a mucosa nasal, parede lateral e \u00e1reas septais do nariz suturadas por partes antes da sutura oral. Quando o v\u00f4mer \u00e9 longo e inserido ao processo palatino oposto \u00e0 fissura, o retalho pode ser obtido dele e suturado aos tecidos palatinos do lado da fissura, como a T\u00e9cnica de Campbell-Pichler (17) Fig. 5<\/p>\n<p>Na maioria dos casos de fenda l\u00e1bio palatina n\u00e3o sindr\u00f4micos n\u00e3o h\u00e1 comprometimento do sistema nervoso e os afetados n\u00e3o t\u00eam retardo mental. A morbidade das crian\u00e7as portadoras \u00e9 maior decorrente da dificuldade para se alimentar, podendo ocorrer desnutri\u00e7\u00e3o, anemia, pneumonia aspirativa e infec\u00e7\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o. Nos casos sem associa\u00e7\u00e3o de malforma\u00e7\u00e3o ou complica\u00e7\u00f5es decorrentes das fendas o progn\u00f3stico \u00e9 bom. (17)<\/p>\n<p>Cuidados odontol\u00f3gicos<\/p>\n<p>As fendas l\u00e1bio palatinas afetam o desenvolvimento dos dentes dec\u00edduo se permanentes com freq\u00fc\u00eancia. Os problemas mais comuns est\u00e3o relacionados com a aus\u00eancia cong\u00eanita de dentes ou presen\u00e7a de dentes supranumer\u00e1rios. As anomalias dent\u00e1rias ocorrem em 53% das crian\u00e7as com fendas. As mais freq\u00fcentes s\u00e3o hipodontia e hipoplasia dent\u00e1ria sendo as menos freq\u00fcentes, a microdontia e os dentes geminados, por\u00e9m ainda s\u00e3o 7% mais freq\u00fcentes do que na popula\u00e7\u00e3o em geral. (20)<\/p>\n<p>A incid\u00eancia de agenesia na \u00e1rea da fenda na denti\u00e7\u00e3o permanente \u00e9 maior do que a de dentes supranumer\u00e1rios e na denti\u00e7\u00e3o dec\u00eddua ocorre o inverso, sendo o incisivo lateral o dente que \u00e9 mais suscept\u00edvel a danos na \u00e1rea da fissura.<\/p>\n<p>A cronologia de erup\u00e7\u00e3o est\u00e1 atrasada em crian\u00e7as portadoras e os dist\u00farbios mais freq\u00fcentes atribu\u00eddos \u00e0 erup\u00e7\u00e3o s\u00e3o prurido, saliva\u00e7\u00e3o abundante, aumento da freq\u00fc\u00eancia de suc\u00e7\u00e3o e irritabilidade.<\/p>\n<p>Os indiv\u00edduos com fissuras, principalmente do palato apresentam discrep\u00e2ncias entre o tamanho, formato e posi\u00e7\u00e3o dos maxilares. Um achado comum \u00e9 o prognatismo mandibular, causado mais pela retra\u00e7\u00e3o da maxila do que pela protus\u00e3o da mand\u00edbula.<\/p>\n<p>Dentre as doen\u00e7as bucais mais prevalentes encontradas nas crian\u00e7as com fendas as maloclus\u00f5es est\u00e3o presentes em mais de 86% dos casos de fissuras, sendo mais freq\u00fcente a mordida cruzada (75% dos casos). A preval\u00eancia e a atividade de c\u00e1ries \u00e9 relativamente maior, sendo os pacientes acometidos<\/p>\n<p>um grupo de risco para o desenvolvimento de c\u00e1ries(1).<\/p>\n<p>Uma higiene bucal deficiente aumenta o aparecimento da placa bacteriana na superf\u00edcie dos dentes. Os programas de preven\u00e7\u00e3o de c\u00e1ries s\u00e3o importantes para garantir a sa\u00fade bucal desses pacientes.<\/p>\n<p>Ao nascer as crian\u00e7as devem ser encaminhadas aos ortodontistas para que estes possam programar o tratamento adequado, j\u00e1 que a varia\u00e7\u00e3o de express\u00e3o da doen\u00e7a \u00e9 muito grande e o tratamento ortod\u00f4ntico \u00e9 individualizado(17).<\/p>\n<p>Discuss\u00e3o<\/p>\n<p>Segundo a literatura pesquisada, n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico fator respons\u00e1vel pelo desenvolvimento das fendas. Existem condi\u00e7\u00f5es de risco, bem como a predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica nos casos n\u00e3o sindr\u00f4micos e fatores ambientais(fumo, \u00e1lcool, medicamento, desnutri\u00e7\u00e3o e etc). (17)<\/p>\n<p>As fendas labiais e palatinas s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancia de falha na fus\u00e3o dos processos osseos da face por\u00e9m, ocorrem em locais e em cronologias diferentes. A primeira resulta do desenvolvimento imperfeito do palato embrion\u00e1rio prim\u00e1rio, j\u00e1 a segunda da falha das cristas palatinas em se contactarem. (14)<\/p>\n<p>Devido a grande variedade de combina\u00e7\u00f5es foram desenvolvidas, ao longo dos anos, classifica\u00e7\u00f5es com o objetivo de descrev\u00ea-las entre elas a de Davis e Ritchie, Kernahan e Stark, Harkins por\u00e9m, a de Spina \u00e9 a mais adotada desde sua concep\u00e7\u00e3o em 1979.(13)<\/p>\n<p>A diversifica\u00e7\u00e3o das fendas faz com que o mesmo aconte\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o as t\u00e9cnicas cir\u00fargicas corretivas. Independente disso, para se obter sucesso do tratamento \u00e9 necess\u00e1rio um acompanhamento multidisciplinar que garanta o restabelecimento funcional est\u00e9tico e psicol\u00f3gico do paciente. (12)<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel afirmar que as fendas labiais e palatinas podem estar associadas ou isoladas e que possuem caracter\u00edsticas clinicas e etiol\u00f3gicas distintas. Ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apontar um fator espec\u00edfico que promova a falha na fus\u00e3o dos processos \u00f3sseos, por\u00e9m, existem situa\u00e7\u00f5es que potencializam a ocorr\u00eancia da m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o, muitas se desenvolveram ao longo dos anos, mas a mais utilizada \u00e9 a de Spina por possuir uma denota\u00e7\u00e3o mais simples e ao mesmo tempo abrangente.<\/p>\n<p>O tratamento deve ser realizado por uma equipe de diferentes profissionais: m\u00e9dicos, dentistas, fonoaudi\u00f3logos, nutricionistas e psic\u00f3logos que atuar\u00e3o em conjunto. A fam\u00edlia dever\u00e1 ter o esclarecimento necess\u00e1rio para lidar com a situa\u00e7\u00e3o visto que, dependendo do grau de severidade as fendas promovem um grande impacto visual. O progn\u00f3stico \u00e9 considerado bom, nos casos em que n\u00e3o h\u00e1 mal forma\u00e7\u00f5es associadas nem complica\u00e7\u00f5es decorrentes das fendas labiais e palatinas.<\/p>\n<p>A preven\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 uma realidade, uma vez que, \u00e9 uma doen\u00e7a multifatorial, mas os avan\u00e7os da medicina j\u00e1 permitem o diagn\u00f3stico precoce.<\/p>\n<p>Referencias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>1. Araruna R.C., Vendr\u00fasculo D.M.S.,(2000). Tratamento Cir\u00fargico de fissuras palatinas completas. Rev. Latino-Am. Enfermagem vol. 8 no.2 ., site www.unifor.br\/hp\/doc_noticias\/vol17-artigo8.pdf<\/p>\n<p>2. Bunduki V., Ruano R., Sapienza A.D., Hanaoka B.Y, Zugaib M.(2001) Diagn\u00f3stico pr\u00e9-natal de fenda labial e palatina: experi\u00eancia de 40 casos. Rev. Br\u00e1s Ginecol Obstetric , 23(9):561-6.<\/p>\n<p>3. David C.S., Jr., M.D.,(1997). Tratado de cirurgia-as bases biol\u00f3gica das praticas cir\u00fargicas modernas. ed. 15\u00ba., cap. 40.<\/p>\n<p>4. Figueiredo I.M.B., Bezerra A.L.; Marques A.C.L.; Rocha I.M.; Monteiro N.R.,(2004). Trat. Cir\u00fargico.,site www.unifor.br\/hp\/doc_noticias\/vol17-artigo8.pdf<\/p>\n<p>5. Fujino, H.; Tanaka, K &amp; Sanui, Y.,(1963).Genetic study of clefts lips palates basead on 2898 Japanese cases.Kyushu J. Med. Sci.,14:317.<\/p>\n<p>6. 3. Gorlin R.J, Pindborg J.J, and Cohen M.M. (1975).Syndromes of the head and neck. 2\u00baed, pg. 50-60<\/p>\n<p>7. Graefe C.F, VON.,(1817). Kurze Nachrichten und Auszuge. J.d. Pract. Arznek.u. Wundarzk.,<\/p>\n<p>44(part1):116.<\/p>\n<p>8. Graziani M., (1995).Cirurgia bucomaxilofacial. 8a ed. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan;.<\/p>\n<p>9. Jorgeson R.J, Pashayan H.M.,(1990) Cleft lip. In: Buyse ML. Birth Defects Encyclopedia. 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Cirurgia oral e maxilofacial contempor\u00e2nea.,3\u00ba ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan;<\/p>\n<p>17. Ribeiro, E.M., Moreira, A.S.C.G.(2004). Atualiza\u00e7\u00e3o sobre o tratamento multidisciplinar das fissuras labiais e palatinas [ www.unifor.br\/notitia\/file\/432.pdf]. Revista brasileira de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade,18(1):31-40.<\/p>\n<p>18. Roux, P. J., (1819).Observation sur une division congenitale du voile du palais et de luette, gu\u00e9rie au moyen d\u2019une operation analogue \u00e0 celled u bec-deli\u00e8vre, pratiqu\u00e9e par M. Roux. J. Universal Sci. Med.; 15:356,<\/p>\n<p>19. Spina. V.A.,(1974)Proposed modification for the classification of cleft lip and cleft palate. Cleft palate J; 10:251.<\/p>\n<p>20. Thom\u00e9 S.,(1990). Estudo da pr\u00e1tica do aleitamento materno em crian\u00e7as portadoras de malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanita de l\u00e1bio e\/ou de palato. Ribeir\u00e3o Preto, Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) &#8211; Escola de Enfermagem de Ribeir\u00e3o Preto, Universidade de S\u00e3o Paulo., 245p.<\/p>\n<p>21.Troviscal L.P., Fenda labial e palatina. In :Leite J.C.L., Comunella L.N., Giugliani R.,(2002) T\u00f3picos em defeitos cong\u00eanitos; p. 1021-7. . Porto Alegre: UFRGS.<\/p>\n<p>Publicado em 17\/5\/2007<\/p>\n<p>Fonte www.cispre.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As fissuras de l\u00e1bio e palato s\u00e3o deformidades cong\u00eanitas caracterizadas pela interrup\u00e7\u00e3o na continuidade dos tecidos do l\u00e1bio superior, rebordo alveolar superior e palato, de forma parcial para cada um destes elementos ou, de maneira mais abrangente, quando mais de um ou mesmo todos estes segmentos do ter\u00e7o m\u00e9dio da face se apresentam comprometidos. Podem ainda ser unilaterais, bilaterais, ou medianas. 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