No
século 21 é difícil imaginar que alguém se submeteria de livre vontade a
semelhante tortura, mas tudo indica que aldeões paquistaneses que
viveram há 9.500 anos, durante o Neolítico (período que se inicia com a
invenção da agricultura), usavam brocas de pedra para abrir buracos nos
próprios dentes --sem anestesia.
Parece tratar-se do primeiro registro da atividade de "dentistas", dizem
os descobridores dos dentes furados e dos artefatos em artigo na "Nature"
de hoje.
"Em alguns casos nós encontramos uma relação direta entre cáries e as
aberturas na coroa dentária, enquanto em outros isso não é tão evidente.
O que complica a interpretação é o desgaste dos dentes, muito acentuado
nessas populações do Neolítico", explica o pesquisador italiano Roberto
Macchiarelli, que trabalha na Universidade de Poitiers (França). Há até
sinais de que um tipo de "massa" dentária tenha sido utilizado: material
de origem vegetal ou, em alguns casos, betume (material aparentado ao
petróleo usado na produção de asfalto).
Os pesquisadores chegaram a simular o procedimento "odontológico", no
qual as brocas de pedra eram amarradas a arcos de madeira, os quais eram
movimentados rapidamente para abrir os buracos. Um dos indivíduos cujos
ossos foram encontrados pelo grupo de Macchiarelli teve três dentes
perfurados, enquanto outro sofreu duas "obturações" no mesmo dente.
A prática foi abandonada cerca de 6.500 anos atrás, para sorte dos
aldeões. "Não tenho idéia do porquê", diz Macchiarelli.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u14463.shtml |