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24/06/2008

Doença mascarada

Dentista é a solução Dor de cabeça intensa e dificuldade para mastigar podem ser sintomas de uma disfunção na mandíbula


Tudo começou com uma dor de cabeça, se espalhou pelo pescoço e, em pouco tempo, a dor que a secretária Mirian de Cássia da Silva Braghin, 39 anos, sentia era tão forte que ela já não conseguia mais beijar na boca e andava com dificuldade. Depois de perambular durante 20 anos por clínicos gerais, otorrinos e até neurologistas, somar duas internações e passar por tomografia e tratamentos desnecessários, com antidepressivos e até morfina, ela descobriu que o alívio para seu problema estava no dentista.

Mirian sofre de disfunção temporomandibular (DTM), problema crônico que acomete a articulação e os músculos responsáveis pelos movimentos da boca. Pouco conhecido, o distúrbio é comum. Estudos apontam que 33% das dores de cabeça têm alguma relação com a DTM.

Outro sintoma característico é dor nas articulações da face. Dos pacientes que procuram o Serviço de Oclusão e Disfunção da Articulação Temporomandibular da Faculdade de Odontologia (FORP) da USP de Ribeirão Preto, 50% trazem essa queixa. Ruído na articulação (35%), dor nos músculos da face (35%) e dor de ouvido (25%) também são reclamações freqüentes.

"Esses pacientes acabam tendo limitações funcionais, como cansaço muscular, dificuldade para abrir e fechar a boca, para mastigar, falar e também deglutir", afirmou o cirurgião dentista Marco Antonio Rodrigues da Silva, professor do Departamento de Odontologia Restauradora da FORP, que pesquisa em parceria com a Universidade de Milão, na Itália.

"Estresse, atividades repetitivas, apertar ou ranger os dentes, roer unhas, morder objetos, lábios, bochechas ou mascar chicletes podem levar ao desequilíbrio do sistema craniomandibular", explicou o professor.

Como o tratamento multidisciplinar da disfunção ainda é pouco disseminado, os sintomas acabam sendo confundidos com sinais de outros quadros, como fibromialgia.

"O paciente fica muito descrente. Peregrina por muitos médicos antes de conseguir o diagnóstico. Quando procura o dentista, chega desconfiado, um pouco agressivo", contou Narcisa Zeferino da Silva Pavan, responsável pelo Departamento de DTM e de Dor Orofacial da residência médica em otorrinolaringologia da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp).

Após 15 anos de pesquisa sobre DTM, ela concluiu que há um perfil psicológico em comum entre as pessoas que desenvolvem a disfunção. "São pacientes muito exigentes, ansiosos e perfeccionistas." O tratamento tradicional consiste no uso de placa de acrílico e também pode ser associado a aplicações de laser para aliviar a dor. Em alguns casos, deve incluir sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e até intervenção psicológica, para tratar a ansiedade.

Vinte anos sem explicação

Depois de iniciar o tratamento da disfunção temporomandibular (DTM) com placa de acrílico e fisioterapia, há três anos, a secretária Mirian Braghin viu sua vida voltar ao normal, gradualmente. Por pelo menos 20 anos, ela sentiu dores de cabeça quase diariamente, a ponto de não conseguir dormir. Seus médicos, porém, não desconfiavam de que a causa poderia estar na mandíbula. "Tomei antidepressivo durante dois anos. Com o tempo, meu corpo ficou duro, fui atrofiando. Não cruzava mais as pernas", contou. Depois de uma maratona de exames no otorrino, ela foi orientada a procurar o dentista. De lá para cá, recuperou os movimentos perdidos. Daquela época de sofrimento, a única seqüela que restou foi a dificuldade em enxergar com o olho direito. "Meu nervo atrofiou igual ao resto do corpo. Faço fisioterapia." O tratamento levou Mirian a mudar alguns hábitos: aboliu o travesseiro e o chiclete, usa placa de acrílico para dormir e faz exercícios para a face todos os dias.

Fonte: Gazeta de Ribeirão
 

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