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Noticias da Odontologia

24/11/2007

O sorriso: entre a razão e a emoção

William Frossard*

 

           Podemos considerar, de uma maneira geral, que cada década na Odontologia é caracterizada por novos conceitos vindos de novas tecnologias e, após pesquisas acadêmicas, passam a fazer parte da rotina clínica, indo ao encontro das necessidades de dos pacientes.

           Nos anos 80, as facetas laminadas de porcelana qualificaram-se por preencher os critérios exigidos, somando-se a eles a crescente demanda pela Odontologia Estética. Facetas laminadas são restaurações estéticas, em resina composta ou porcelana que envolvem preferencialmente uma face livre e parte das faces proximais do dente. Em alguns casos, pode se estender também para a face lingual.

             As facetas estão indicadas para todos aqueles dentes anteriores que, por comprometimento estético ou funcional, necessitem ter sua forma, tamanho ou cor restaurados, sendo um procedimento conservador quando comparado às próteses convencionais. Este tipo de metodologia, portanto, permite a modificação da forma, posição e cor dos dentes, originando efeitos significativos no sorriso.

            Pela sua longevidade e durabilidade, quando realizadas corretamente em situações clínicas apropriadas, as facetas laminadas hoje em dia são utilizadas rotineiramente, com alto grau de sucesso clínico, inclusive em pré-molares devido à continuidade da harmonia durante o sorriso.

            Entretanto, as facetas laminadas têm seu uso restrito. Nas situações clínicas onde necessitávamos ser mais invasivos, com recobrimento total dos elementos dentários, as coroas em metalo-cerâmica ocuparam e ainda ocupam um lugar de destaque dentro da Odontologia justamente pelo sucesso clínico, fartamente descrito dentro da literatura especializada. Esse tipo de trabalho parece ser de longe o mais bem sucedido na produção de restaurações resistentes ao estresse oclusal.

            No entanto, as subestruturas metálicas tendem a ser problemáticas em termos de estética. A cor do metal precisa ser bloqueada, mascarada e isto é difícil nas áreas de margem, assim como nas áreas de pouca espessura de porcelana. Além disso, a translucidez da restauração é fortemente reduzida por essa subestrutura.

             Pensando nisso, foi desenvolvida uma técnica que combina subestrutura metálica com margens de porcelana. O técnico deve reduzir o coping metálico de forma a permitir espaço para margens totalmente cerâmicas (ombro cerâmico). A partir disso, com o desejo crescente de eliminarmos o metal na composição estética das próteses dentárias, no final dos anos 80 e início dos anos 90 foram introduzidos no mercado as coroas livres de metal. Dentre esses sistemas, podemos citar alguns: IPS Empress, In Ceram, Cerec,  Procera, Cercon, Lava.

               O IPS Empress é uma cerâmica feldspática reforçada por leucita com boas propriedades mecânicas e visuais. Este sistema emprega modelos de cera que são incluídos com subseqüente termopressão da cerâmica vítrea. Esta é uma técnica versátil que pode ser usada para facetas laminadas, coroas de jaqueta, inlays, onlays e prótese fixa de três elementos anteriores  até segundo pré-molar, sendo sua resistência flexural em torno de 300-400 Mpa.

              O sistema In-Ceram foi desenvolvido por Sadoun em 1985. Ele faz uso de munhões aluminizados infiltrados por vidro para alcançar maior resistência. A infra-estrutura obtida fornece resistência à flexão em média de 400Mpa, sendo indicado para a confecção de coroas totais anteriores e posteriores e próteses fixas de três elementos para a região anterior até pré-molar.

           O sistema In-Ceram Spinell utiliza uma mistura de alumina e magnésia, o que torna a infra-estrutura mais translúcida e com resistência à flexão 25% menor em relação à In-Ceram Alumina. Portanto, é indicado para coroas totais anteriores, inlays e onlays em situações em que se deseja uma maior translucidez da estrutura.

            O Procera é baseado no sistema CAD-CAM (Computer-Assisted Design – Computer Assisted-Manufacture). O CAD utiliza um “scanner” de troquel e um computador, o qual irá converter as informações digitadas pelo “scanner” em imagens tridimensionais de alta resolução. Após o processamento destes dados, é possível, por meio de um software específico, trabalhar sobre esse preparo definindo suas margens, estabelecendo espessura uniforme da infra-estrutura protética, e enviar via internet as informações para a central de produção (Suécia e Estados Unidos). Normalmente, após cinco dias em média, recebemos o trabalho (infra-estrutura) no local desejado, via correio. Esse sistema consiste na produção industrial de “copings” de óxido de alumínio, altamente puro e densamente sinterizado. O processo de sinterização produz uma superfície livre de poros e extremamente resistente.

            Desenvolvido também através do sistema CAD-CAM, a cerâmica de Óxido de Zircônia é o mais recente e promissor material disponível no mercado. A zircônia é um material com excelente biocompatibilidade, que apresenta uma série de vantagens: baixa condutibilidade térmica e menor colonização bacteriana em relação a outras cerâmicas. É uma estrutura cristalina tetragonal parcialmente estabilizada pelo óxido de ítreo e tem a capacidade de quando submetida a forças se transformar numa fase monoclínica, aumentando de volume, evitando a propagação de trincas, além de possuir alta resistência flexural (> 1000Mpa).

            Sua opacidade, semelhante ao do metal, não impede que apresente propriedades óticas favoráveis, sendo capaz de mascarar núcleos metálicos, dentes escurecidos e conseguir como resultado final uma estética adequada. Por todas essas qualidades, sua indicação dentro da cavidade oral é irrestrita, podendo ser utilizado para restaurações unitárias, prótese parcial fixa, prótese adesiva e também para núcleos intra-radiculares e implantares.

            Outra possibilidade de utilização, também através do sistema CAD-CAM, é a possibilidade de se confeccionar estruturas extremamente precisas para prótese sobre implantes, tanto aparafusadas quanto cimentadas.

 

Prevenção e ética

Entretanto, podemos afirmar que o tratamento mais moderno que existe em Odontologia, é a prevenção, juntamente com os cuidados de higiene e manutenção profissional. A melhor prótese do mundo, feita pelo melhor dentista, não é melhor que os nossos dentes naturais. Mas, é claro, a prótese ocupa um lugar de destaque dentro da Odontologia atual, quando aplicada  nos casos de perda do(s) dente(s), ou parte deles, ou mesmo por indicação estética, possibilitando a devolução de um sorriso harmonioso. Além do mais, existirá o resgate da auto-estima e da confiança, o que é um dos aspectos mais fascinantes da nossa especialidade: o de não estar mexendo apenas com dentes, bocas, mas com sentimentos, emoções, bem-estar, alegria de viver...

           Muitos pacientes e clínicos procuram diretrizes para o que deveria ser o sorriso perfeito. O sorriso é, ainda, um dos maiores atrativos da personalidade e, por ser capaz de abrir muitas portas, as pessoas atualmente estão dispostas a investir tempo e dinheiro para melhorá-lo, não menos do que fazem pela aparência de outras áreas do corpo. 

            O sorriso apresenta claramente três componentes: os dentes, os lábios e a gengiva. Entretanto muitos outros elementos menos evidentes estão envolvidos, tais como: tamanho, equilíbrio de cores, textura, translucidez e assim por diante. Tanto a estética dental como a gengival atuam em conjunto para proporcionar um sorriso com harmonia e equilíbrio. Um defeito nos tecidos circundantes não pode ser compensado através da qualidade da restauração e vice-versa.

            Portanto, na Odontologia atual, é praticamente fundamental que a busca por um “sorriso perfeito” tenha uma abordagem multidisciplinar: Ortodontia, Periodontia, Implantodontia, Cirurgia juntamente com a Prótese clínica e laboratorial.

             Um outro aspecto extremamente importante, é ouvir o paciente e interpretar adequadamente seus anseios. Quando o paciente é incapaz de entender, apesar de todo o esforço do profissional, a impossibilidade de satisfazer suas necessidades, visto que são incompatíveis com o clinicamente possível, é melhor não realizar o tratamento.

            O dever ético do cirurgião-dentista é o de sempre oferecer explicações detalhadas sobre o tratamento, dentro da possibilidade de compreensão do paciente e respeitando suas expectativas. No que se refere aos materiais disponíveis, às diferentes técnicas e aos procedimentos estéticos existentes, os pacientes ainda podem ser considerados leigos.

            Em prol da estética, não deve haver detrimento da ética. Respeitar o que é natural consiste em tarefa extremamente difícil e trabalhosa e, como ocorre na maioria dos casos, o conceito estético do paciente nem sempre se aproxima do que é natural.

            Citando o Prof. Carlo Zappalà, existe uma área neutra que pode ser explorada a fim de satisfazer as vontades do paciente, sem comprometer a ética profissional. Esse limite está entre a razão e a emoção, entre a percepção e o conhecimento técnico e o marketing. É onde a emoção e o conhecimento científico se encontram. Criar a verdadeira estética requer a compreensão de que a melhor restauração é aquela que não pode ser notada.    

 

William Frossard é mestre em Dentística, especialista em Prótese Dentária, coordenador e professor do curso de Especialização em Prótese Dentária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e consultor da Nobel Biocare

Fonte Jornaldosite

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