O sorriso: entre a razão e a
emoção
William Frossard*
Podemos considerar, de uma maneira
geral, que cada década na Odontologia é caracterizada por
novos conceitos vindos de novas tecnologias e, após pesquisas
acadêmicas, passam a fazer parte da rotina clínica, indo ao
encontro das necessidades de dos pacientes.
Nos anos 80, as facetas laminadas de porcelana
qualificaram-se por preencher os critérios exigidos,
somando-se a eles a crescente demanda pela Odontologia
Estética. Facetas laminadas são restaurações estéticas, em
resina composta ou porcelana que envolvem preferencialmente
uma face livre e parte das faces proximais do dente. Em
alguns casos, pode se estender também para a face lingual.
As facetas estão indicadas para todos aqueles
dentes anteriores que, por comprometimento estético ou
funcional, necessitem ter sua forma, tamanho ou cor
restaurados, sendo um procedimento conservador quando
comparado às próteses convencionais. Este tipo de
metodologia, portanto, permite a modificação da forma,
posição e cor dos dentes, originando efeitos significativos
no sorriso.
Pela sua longevidade e durabilidade, quando realizadas
corretamente em situações clínicas apropriadas, as facetas
laminadas hoje em dia são utilizadas rotineiramente, com alto
grau de sucesso clínico, inclusive em pré-molares devido à
continuidade da harmonia durante o sorriso.
Entretanto, as
facetas laminadas têm seu uso restrito. Nas situações
clínicas onde necessitávamos ser mais invasivos, com
recobrimento total dos elementos dentários, as coroas em
metalo-cerâmica ocuparam e ainda ocupam um lugar de destaque
dentro da Odontologia justamente pelo sucesso clínico,
fartamente descrito dentro da literatura especializada. Esse
tipo de trabalho parece ser de longe o mais bem sucedido na
produção de restaurações resistentes ao estresse oclusal.
No entanto, as subestruturas metálicas tendem a ser
problemáticas em termos de estética. A cor do metal precisa
ser bloqueada, mascarada e isto é difícil nas áreas de
margem, assim como nas áreas de pouca espessura de porcelana.
Além disso, a translucidez da restauração é fortemente
reduzida por essa subestrutura.
Pensando nisso, foi desenvolvida uma técnica que
combina subestrutura metálica com margens de porcelana. O
técnico deve reduzir o coping metálico de forma a permitir
espaço para margens totalmente cerâmicas (ombro cerâmico). A
partir disso, com o desejo crescente de eliminarmos o metal
na composição estética das próteses dentárias, no final dos
anos 80 e início dos anos 90 foram introduzidos no mercado as
coroas livres de metal. Dentre esses sistemas, podemos citar
alguns: IPS Empress, In Ceram, Cerec, Procera, Cercon, Lava.
O IPS Empress é uma cerâmica feldspática
reforçada por leucita com boas propriedades mecânicas e
visuais. Este sistema emprega modelos de cera que são
incluídos com subseqüente termopressão da cerâmica vítrea.
Esta é uma técnica versátil que pode ser usada para facetas
laminadas, coroas de jaqueta, inlays, onlays e prótese fixa
de três elementos anteriores até segundo pré-molar, sendo
sua resistência flexural em torno de 300-400 Mpa.
O sistema In-Ceram foi
desenvolvido por Sadoun em 1985. Ele faz uso de munhões
aluminizados infiltrados por vidro para alcançar maior
resistência. A infra-estrutura obtida fornece resistência à
flexão em média de 400Mpa, sendo indicado para a confecção de
coroas totais anteriores e posteriores e próteses fixas de
três elementos para a região anterior até pré-molar.
O sistema In-Ceram Spinell utiliza
uma mistura de alumina e magnésia, o que torna a
infra-estrutura mais translúcida e com resistência à flexão
25% menor em relação à In-Ceram Alumina. Portanto, é indicado
para coroas totais anteriores, inlays e onlays em situações
em que se deseja uma maior translucidez da estrutura.
O Procera é baseado no sistema
CAD-CAM (Computer-Assisted Design – Computer
Assisted-Manufacture). O CAD utiliza um “scanner” de troquel
e um computador, o qual irá converter as informações
digitadas pelo “scanner” em imagens tridimensionais de alta
resolução. Após o processamento destes dados, é possível, por
meio de um software específico, trabalhar sobre esse preparo
definindo suas margens, estabelecendo espessura uniforme da
infra-estrutura protética, e enviar via internet as
informações para a central de produção (Suécia e Estados
Unidos). Normalmente, após cinco dias em média, recebemos o
trabalho (infra-estrutura) no local desejado, via correio.
Esse sistema consiste na produção industrial de “copings” de
óxido de alumínio, altamente puro e densamente sinterizado. O
processo de sinterização produz uma superfície livre de poros
e extremamente resistente.
Desenvolvido também através do
sistema CAD-CAM, a cerâmica de Óxido de Zircônia é o mais
recente e promissor material disponível no mercado. A
zircônia é um material com excelente biocompatibilidade, que
apresenta uma série de vantagens: baixa condutibilidade
térmica e menor colonização bacteriana em relação a outras
cerâmicas. É uma estrutura cristalina tetragonal parcialmente
estabilizada pelo óxido de ítreo e tem a capacidade de quando
submetida a forças se transformar numa fase monoclínica,
aumentando de volume, evitando a propagação de trincas, além
de possuir alta resistência flexural (> 1000Mpa).
Sua opacidade, semelhante ao do
metal, não impede que apresente propriedades óticas
favoráveis, sendo capaz de mascarar núcleos metálicos, dentes
escurecidos e conseguir como resultado final uma estética
adequada. Por todas essas qualidades, sua indicação dentro da
cavidade oral é irrestrita, podendo ser utilizado para
restaurações unitárias, prótese parcial fixa, prótese adesiva
e também para núcleos intra-radiculares e implantares.
Outra possibilidade
de utilização, também através do sistema CAD-CAM, é a
possibilidade de se confeccionar estruturas extremamente
precisas para prótese sobre implantes, tanto aparafusadas
quanto cimentadas.
Prevenção e ética
Entretanto, podemos afirmar que
o tratamento mais moderno que existe em Odontologia, é a
prevenção, juntamente com os cuidados de higiene e manutenção
profissional. A melhor prótese do mundo, feita pelo melhor
dentista, não é melhor que os nossos dentes naturais. Mas,
é claro, a prótese ocupa um lugar de destaque dentro da
Odontologia atual, quando aplicada nos casos de perda do(s)
dente(s), ou parte deles, ou mesmo por indicação
estética, possibilitando a devolução de um sorriso
harmonioso. Além do mais, existirá o resgate da auto-estima e
da confiança, o que é um dos aspectos mais fascinantes da
nossa especialidade: o de não estar mexendo apenas com
dentes, bocas, mas com sentimentos, emoções, bem-estar,
alegria de viver...
Muitos pacientes e clínicos
procuram diretrizes para o que deveria ser o sorriso
perfeito. O sorriso é, ainda, um dos maiores atrativos da
personalidade e, por ser capaz de abrir muitas portas, as
pessoas atualmente estão dispostas a investir tempo e
dinheiro para melhorá-lo, não menos do que fazem pela
aparência de outras áreas do corpo.
O sorriso apresenta claramente
três componentes: os dentes, os lábios e a gengiva.
Entretanto muitos outros elementos menos evidentes estão
envolvidos, tais como: tamanho, equilíbrio de cores, textura,
translucidez e assim por diante. Tanto a
estética dental como a gengival atuam em conjunto para
proporcionar um sorriso com harmonia e equilíbrio. Um defeito
nos tecidos circundantes não pode ser compensado através da
qualidade da restauração e vice-versa.
Portanto, na Odontologia atual, é
praticamente fundamental que a busca por um “sorriso
perfeito” tenha uma abordagem multidisciplinar:
Ortodontia,
Periodontia,
Implantodontia,
Cirurgia juntamente com a Prótese
clínica e laboratorial.
Um outro aspecto extremamente
importante, é ouvir o paciente e interpretar adequadamente
seus anseios. Quando o paciente é incapaz de entender, apesar
de todo o esforço do profissional, a impossibilidade de
satisfazer suas necessidades, visto que são incompatíveis com
o clinicamente possível, é melhor não realizar o tratamento.
O dever ético do
cirurgião-dentista é o de sempre oferecer explicações
detalhadas sobre o tratamento, dentro da possibilidade de
compreensão do paciente e respeitando suas expectativas. No
que se refere aos materiais disponíveis, às diferentes
técnicas e aos procedimentos estéticos existentes, os
pacientes ainda podem ser considerados leigos.
Em prol da estética, não deve
haver detrimento da ética. Respeitar o que é natural consiste
em tarefa extremamente difícil e trabalhosa e, como ocorre na
maioria dos casos, o conceito estético do paciente nem sempre
se aproxima do que é natural.
Citando o Prof. Carlo Zappalà,
existe uma área neutra que pode ser explorada a fim de
satisfazer as vontades do paciente, sem comprometer a ética
profissional. Esse limite está entre a razão e a emoção,
entre a percepção e o conhecimento técnico e o
marketing. É onde a emoção e o conhecimento científico se
encontram. Criar a verdadeira estética requer a compreensão
de que a melhor restauração é aquela que não pode ser
notada.
William
Frossard é mestre em Dentística, especialista em Prótese
Dentária, coordenador e professor do curso de Especialização
em Prótese Dentária da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ) e consultor da Nobel Biocare |