No
século XVIII, quando o café conquistou fama,
os intelectuais se reuniam para falar de literatura, artes e
política embalados por goles da bebida quente. Nas últimas décadas,
porém, foram jogadas várias acusações nessa xícara.
Resultado: preocupada, muita gente só não resiste ao aroma
dos grãos torrados quando precisa espantar o sono. Uma
pena… Embora continuem aparecendo opiniões contrárias ao
consumo desenfreado desse símbolo nacional, cada vez mais
pesquisadores botam a colher na briga e defendem os benefícios
da infusão. Um trabalho concluído no final de 2000
acompanhou 100 mil jovens de todo o Brasil durante 10 anos e
constatou uma incidência menor de depressão e de dependência
química entre quem tomava um cafezinho todo santo dia. Depois
de passar pelo filtro dos cientistas, componentes que ainda não
estão na boca do povo — como os ácidos clorogênicos —
se mostraram tão importantes para os efeitos positivos quanto
a polêmica cafeína.
A suspeita é de que a bebida evite
o mal de Parkinson
O velho hábito de oferecer café com leite para a garotada
— ironicamente fora de moda no país que tem a maior produção
desse fruto — bem que poderia voltar às mesas brasileiras.
Essa é a opinião de um dos maiores estudiosos do assunto no
país, o médico Darcy Lima, do Instituto de Neurologia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele é o responsável
pela pesquisa que avaliou o consumo de café entre estudantes
brasileiros durante toda a década de 1990. "Misturada ao
leite, a bebida fica nutritiva e as propriedades não são
alteradas", observa.
Satisfação garantida
A ciência ainda não responde tintim por tintim como o café
atua na massa cinzenta. As evidências de que ajudaria a
afastar a depressão,
o alcoolismo e a dependência de drogas parecem não estar
ligadas à cafeína, e sim à ação dos tais ácidos clorogênicos
no sistema límbico. Ali suas moléculas parecem se encaixar
como chaves mestras em receptores denominados opióides.
"Ao ser ativados pelas drogas, eles produzem sensações
de prazer e saciedade", explica Darcy Lima. "Quando
estão bloqueados, parece haver uma diminuição da vontade de
se entregar ao vício." Outra pesquisa bastante badalada
no ano 2000 analisou 8 mil indivíduos entre 45 e 68 anos nos
Estados Unidos. Publicada no jornal da Associação Médica
Americana, ela indica um risco bem menor de desenvolver o mal
de Parkinson para quem bebe, no mínimo, três cafezinhos diários.
Ninguém em sã consciência defende
o consumo exagerado
Às vezes, porém, é preciso abrir mão de um cafezinho
— talvez seja o caso das futuras mamães, considerando-se um
novo estudo sueco. Segundo ele, a cafeína presente em quatro
xícaras pequenas é capaz de dobrar as chances de aborto.
Mas os próprios médicos dizem que ainda é cedo para
fazer alarde: “Um único trabalho não pode ser
conclusivo”, opina o ginecologista e obstetra Alcides Vara,
da Maternidade Santa Joana, em São Paulo. Para ele, bebericar
dois ou três cafezinhos diariamente pode até melhorar o
astral das gestantes. Uma coisa é certa: café demais pode
atrapalhar a formação dos dentes no feto. Uma grávida
jamais pode abusar desse prazer.
Coração na mira
O café também sustenta a fama de aumentar os riscos de
infarto. Para conferir se isso não passa de mito, a Federação
Mundial de Cardiologia vai iniciar um estudo com 40 mil
pessoas de vários países. Elas serão divididas em dois
grupos:
o dos fãs da bebida e o daqueles que a excluem
do dia-a-dia.
“Queremos saber qual é a turma com maior propensão para
males cardíacos”, explica o médico Mário Maranhão,
presidente da entidade. Não é tão simples assim. Se café
demais causa insônia, nervosismo, pode elevar a pressão e o
colesterol, goles moderados agem no sentido inverso,
melhorando o humor e a disposição — nesse aspecto o coração
deve agradecer.
Visite o site da Associação Brasileira da Indústria de Café:
www.abic.com.br
Nele você encontra informações sobre os grãos produzidos
no Brasil, dados históricos e dicas
de preparo.
fonte: revista saúde! edição 210 /março 2001 pág
28
voltar
para os temas